Era um quarto escuro, e apenas um fino feixe de luz o iluminava.
Lá dentro, era possível enxergar somente uma menina: era alta e tinha cabelos longos que delicadamente desciam por suas costas formando grandes cachos.
“Eu vou te levar lá! Nós vamos alcançar a lua, Emily!”
Era tudo o que ela conseguia pensar enquanto estava naquele gélido cômodo. A frase não saía de sua mente, apesar de ela não saber se era fato ou ficção.
A garota olhou para os lados e foi embora, como se estivesse saindo da cena de um crime.
Andava lenta e cautelosamente pelas sombras, ela era estonteantemente bonita, apesar de estar suja e desarrumada. Em sua face, expressava medo; quase como se pedisse ajuda ou até mesmo implorasse para ser impedida.
Emily não havia notado, mas, desde que saíra da casa, uma mulher a seguia. Ela era um pouco mais alta que a garota, tinha cabelos curtos, desfiados, perfeitamente lisos e absurdamente negros, o que contrastava com sua pele extremamente branca; tinha olhos verdes extremamente expressivos. A mulher cautelosamente seguia a garota, garantindo que ninguém a notasse.
- Ah, por quanto tempo ainda terei que agir como uma babá? Pelo amor de Deus, Alexander! – Exclamou a mulher, quando de repente, um homem ainda mais alto que ela, magro, de cabelos longos lisos e brancos (apesar de ser jovem), apareceu.
- Até quando garantirmos que a garota é mesmo capaz de cumprir as ordens dele, Victoria. Você não quer desagradá-lo, quer?
- Não, nunca! – Ela tocou o peito dele, levemente – Quando é que vamos ter um tempo sozinhos, Alexander? – Com uma voz completamente sedutora.
- Assim que você cumprir a tarefa para a qual foi designada, Victoria. – Não se importando com as insinuações da mulher,
E, do mesmo modo como surgiu, ele desapareceu.
- Droga de garota! –disse Victoria serrando os punhos.
A menina, que ainda tinha uma expressão aterrorizante em sua face, continuava andando vagarosamente, como se desejasse desaparecer, quando, então, esbarrou em um garoto tão alto quanto ela, e que aparentava ter a mesma idade.
Ele tinha uma face angelical e, por um segundo, sem saber porque, ela desejou que ele a abraçasse.
- Preciso tirar você daqui, agora. - disse o garoto impassível - Não há tempo para explicações ou apresentações, apenas venha comigo, Emily.
Ele pegou em sua mão e a puxou, sem que ela ao menos tivesse tempo para assimilar as informações. Correram para longe dali, até encontrarem um local isolado, e, então, pararam, e ele colocou-se a dois ou três passos diante dela.
- Não há tempo, ela com certeza não nos perdeu de vista. – Disse o misterioso garoto.
Ele abriu grandes asas, tão negras quanto o cabelo de Victoria, mas, de certa forma, suas penas reluziam a luz da lua. Emily sorriu, não estranhando as asas, como se elas já lhe fossem familiares. Ela o abraçou bem forte, e então ele voou em direção àquele estrelado céu.
A menina sentia um frio na barriga, mas não parecia estar assustada. Apesar da altitude, a pressão parecia adequada, e o vento parecia estar, delicadamente, acariciando sua face. Ela não reparou muito na paisagem à sua volta, as sensações que sentia no vôo já eram perfeitas o suficiente, não importando o ambiente.
- Ah, perdão, - desculpou-se ele, com um leve sorriso – , Havia até esquecido de me apresentar. Meu nome é Adam, e estou te levando para um lugar seguro, fique tranqüila.
- Você não deveria me salvar, Adam... – Ela aproveitou para encará-lo. Em meio àquela correria, ela não tivera tempo de reparar em sua fisionomia.
Ele tinha cabelos comuns, bem negros; olhos azul-escuro, como o céu ao anoitecer.
Ela sufocantemente esperou por uma resposta dele, ou mesmo algum breve comentário mas Adam não se pronunciou.
- Não fique assim, em silêncio... – Implorou, com uma voz quase “chorosa”.
- Não é assim, Emily. - Disse ele, tranqüilizando-a - Você perceberá com o tempo... Não é como se eu pudesse simplesmente contar tudo a você, sabe ? – Respirou fundo. – Chegamos. Aqui eles não vão te encontrar. – Delicadamente soltou-a na frente do que parecia ser um pequeno chalé
Emily, por sua vez, segurou a mão dele.
- Você pode ficar...? – Vergonhosamente implorando.
- Se você quiser. –Disse Adam, sorrindo brevemente, mas tempo o suficiente para que a menina sentisse um aconchegante calor dentro de si.
- Obrigada, Adam.
Ele abriu a porta para que pudessem entrar no chalé, e logo em seguida a trancou. Mostrou as acomodações da garota, mas, de alguma forma, ela parecia já conhecer aquele lugar, como se fosse a sua casa.
- Você se importa em dormir no quarto comigo? Vou me sentir mais segura assim...
- Sem problemas... – Disse Adam, com uma tristeza estranha no fundo dos olhos; como se quisesse dizer alguma coisa.
Ela se deitou, com os olhos vidrados nele, como se ele fosse a pessoa mais importante de sua vida, e ela não pudesse se lembrar disto. E então, ele sentou-se na cama, ao lado dela. Emily levantou-se um pouco, o suficiente para que pudesse se mover e descansar sua cabeça no colo do garoto, que ficou acariciando os cabelos da mesma.
Quando Emily acordou, encontrou-o adormecido. Ela precisava tanto de respostas! E nem ao menos sabia se poderia mesmo confiar nele, mas definitivamente sentia que podia, se sentia tão confortável e segura em sua presença...
A garota puxou-o para o seu colo, para que ele ficasse mais bem aconchegado, e ficou fitando as próprias mãos por dois ou três minutos. Estavam limpas, para qualquer um que as visse... Mas para ela, estavam banhadas em sangue. Em sua mente uma voz ecoava, cheia de dúvidas. Aquilo que ela fazia, era mesmo certo?
Havia três dias que tudo isso começara e, desde então, essas perguntas ecoavam em sua mente incessantemente. Como não podia obter respostas - ao menos não naquele momento - apenas as ignorou, e perdeu-se em seus pensamentos enquanto olhava para Adam.
Talvez, eventualmente, ele lhe traria as tão desejadas respostas que ela pensava precisar.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
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